terça-feira, 25 de março de 2008

Cabei Chegando.

Sem apresentações, sem nada. A seco e com areia.

Atualização: Animais, o que segue é um fictício. Em voz masculina. Isso NÃO quer dizer que tô virando hominho. Êta.


A casa, eu tenho só pra mim. É a primeira vez que digo isso em um punhado de tempo. Minha família dorme, e por mais que possa-se gostar de famílias, se você tem alguma coisa dentro de você, gosta de sossego. O tumulto apaga, mesmo os risos, as cores, os cafés-da-manhã, sufocam essas coisas que você gosta de chamar de só suas. Mas alguns aqui sempre acordam mais cedo que eu, e sempre acordarão. Quando desperto, algo já está em movimento. Outros acordam e sempre acordarão os mais tardios, e parecem não se importar com isso. Eu fico no meio, no ínterim.

Talvez. Seja como for, já era o sossego. Um passa por mim e me faz perguntas, a forma mais bem sucedida de começar uma conversação. Eu não quero conversas bem sucedidas. Quero um pouco de silêncio e a sua ausência pra gostar mais dele. Mas com as perguntas é assim, essas te arrancam de toda e qualquer coisa que estiver fazendo para apenas respondê-las. Apenas? Ninguém pára pra pensar se a outra parte está tendo pensamentos profundos que serão arruinados após a formulação da pergunta. Ninguém se importa se ela estava fazendo outra coisa. Perguntas são perguntas. Não ofendem.

Desculpe, estou irascível. Não era minha intenção.

Mas aquele instante. Do momento em que comecei o primeiro parágrafo, até uma linha antes do começo do segundo. Era só meu. Enquanto minha namorada dorme na cama da qual eu saí silenciosamente pra me arrumar pro curso, e o instante em que vem me falar que é Sábado de Carnaval. Pro Inferno com o Sábado de Carnaval. Como você ousa me tirar o sossego de uma hora de ônibus até o curso que eu tanto ansiava, como você ousa interromper minha solidão que já durava mais de vinte minutos, mas que eu gostaria de estender por horas e horas e horas, com essa sua pergunta estúpida revestida com ares de superioridade calendárica? Só porque você tem os dois pés mais firmes no chão que eu? Espere e assista só como me importo com isso.

Pois me deixasse quebrar a cara.

Com pessoas demais é assim. Se preocupam com você, de um modo arrogante ou um modo prestativo, não importa. Por mais que você seja quem você é, elas acabam te ajudando. Elas aplainam seus erros. Pois querer ficar sozinho é querer quebrar a cara. Meia dúzia de erros, mas sem meia dúzia de perguntas. Sem "O que você tá fazendo?", sem "vou fazer um café, depois vamos malhar?". Prefiriria. Mas não me deixam. E acham perfeitamente natural não me deixarem saltar pra dentro de mim mesmo. Vai ver, acham que é um favor, até.

Eu queria gostar menos de famílias, e com isso descartar meu último lastro com a humanidade. Mas é um desejo incompleto e completamente impossível. Estou atrelado a eles como estou atrelado ao meu exílio. Mas de um eu tenho quase o tempo todo. De outro hoje eu tive vinte minutos. E isso me permite continuar.

6 comentários:

Basílio Sgaratti disse...

Notei uma intertextualidade com aquela história de Tim-Maianismo.

Na minha opinião, a solidão é uma armadilha, porque atrai pelas possibilidades, mas se desfrutada por muito tempo, prende e impede que emerjamos de volta ao contato social.

Abraços Fraternos

Daniel Bastos disse...

Um "minha namorada" escrito por você faz mentes sujas pipocarem.

Carlota Polar disse...

É um fictício, e é sobre um cara. Que existe nas nossas mentes sujas, minha e da Rita. O Rafael tá meio de incauto nessa história toda, diga-se de passagem.

Mas o personagem é um homem, e esse não é um romance eros.

Rita Kramer disse...

"Romance Eros"??


HAHAHAHAHAHAHHAHA

Até que não é má idéia... Deixa eu colocar umas bandalheiras na minha parte aqui...

Carlota Polar disse...

Rita! Comporte-se, está me ouvindo? Comporte-se!

Só se você me deixar tirar a verificação cu de palavras e pôr os comentários em pop-up.

Duda disse...

O pessoal do colégio me olha estranho quando digo que odeio acordar depois dos outros. E sei lá. Odeio quando a minha mãe tira folga a tarde, ou meu pai não vai trabalhar e... bem. Meu sonho é viver sozinha. Que nem o cara aê.

E eu sou mais os comentários em pop-up e sou a favor de tirar a verificação cu de palavras. Beijos.